Trajetória

O dia que fomos campeões do mundo

Lenio Luiz Streck
Ex-goleiro do juvenil do Internacional de Santa Maria,  do Riograndense de Santa Maria, do Avenida de Agudo,  do Avenida de Santa Cruz do Sul e do E.C. Juventude de Linha Santa Cruz. Já  há alguns anos parou de jogar.

 

lenio_02.jpg        Foi lá por volta de 1974. Fazia frio. Inverno com minuano, aquele vento que assovia. Bom para comer bergamota ao sol. E atirar casquinhas ao longe. Encravada entre dois morros, a cidade de Agudo era quase parnasiana. E bucólica. Ainda hoje é assim. À noitinha batia uma certa melancolia (a palavra em alemão “Gelassenheit” parece traduzir melhor o que é “melancolia”), que brotava das fracas luzes que saíam das casas e dos pequenos armazéns. Naqueles dias a cidade estava diferente. Havia uma grande expectativa. Nosso time, o glorioso Atlético Clube Avenida, disputava campeonatos regionais. Não mais do que isto. E, claro, torneios da redondeza, que começavam de manhã e terminavam  com a disputa dos pênaltis já no lusco-fusco do entardecer. Nosso estádio era o da Baixada. Ao lado da zona do meretrício. Perdi a conta das vezes em que alguns de nossos jogadores vinham direto para o jogo. Apenas atravessavam a rua. O estádio era murado, “moderno”. E tinha uma arquibancada. Vestiários. Ninguém na redondeza tinha algo assim. O nosso  Avenida era absolutamente amador. Amávamos o futebol. Eu mesmo treinava duas vezes por semana. Era goleiro. Fazia cálculos em planilha. Quantos metros tinha que me adiantar para “fechar” o ângulo na hora do pênalti? Se o adversário vinha entrando na área, eu sabia em que lugar eu tinha que estar. Conhecia o campo na palma da mão. Treinava horas e horas. O Estádio tinha iluminação apenas na parte à frente dos vestiários. Os treinos que entravam noite a dentro pendiam pouco a pouco para o lado da arquibancada. Estreitavam, pois. E viravam “meia-linha”.

        O acontecimento anual era o torneio inter-seleções que se realizava em Faxinal do Soturno. Reuniam-se as equipes de Agudo, Nova Palma (dos irmãos Pipe), Restinga Seca, Dona Francisca e Faxinal do Soturno, que tinha como craque o centroavante Melão, que chegou a jogar no Riograndense de Santa Maria. Não havia ano em que não dava confusão.  Nos quatro campeonatos que disputei, não chegamos ao pódio. Tínhamos a melhor equipe, mas sempre dava alguma coisa errada. Ou tínhamos que buscar  alguns jogadores no baixo meretrício, antes da viagem, ou o exército não liberava o meia-esquerda. Sem contar as arbitragens. E os gols que nossos atacantes erravam. O Aldomiro conseguia fazer coisas incríveis. Fazia gols maravilhosos, mas conseguia errar gols debaixo da goleira. No ano de 1975, chegamos a golear Dona Francisca, um domingo antes do campeonato. Oito a um. Espetáculo. Mas, no torneio interseleções, zero a zero. E perdemos para Restinga Seca. Um gol de pênalti. Roubado, é claro. E eu não consegui defender. Sentia-me como o Andrada no gol 1000 do Pelé. Mais um ano sem ganhar o torneio.

        E assim era o nosso time.  Tínhamos um menino talentoso, que hoje jogaria em qualquer grande clube. Era o Neca. Nequinha. Sabia tudo de bola. Chegou a jogar no Riograndense de Santa Maria. Nunca mais o vi. Eu mesmo em 1972 joguei no juvenil do Riograndense e depois no Internacional. O Interzinho.  Acreditem (guardo até hoje a carteira de atleta). documento.jpgEu era juvenil e o Plein, esse que treinou o Grêmio, era o ídolo da torcida. Lembro-me de minha melhor partida no juvenil. Tiramos a invencibilidade de quarenta e dois jogos do Montesi, time amador da cidade.  Fechei o gol. Durante a semana não se falava de outra coisa. Ah, eu queria que o tempo parasse. Ou passasse mais devagar. Para curtir o efêmero.

       E assim eu andava. Jogando bola. Por aí. Queria ser jogador. Usava o número 78 na camiseta. E, para imitar o Ado, aquele goleiro do Corintians e da seleção de 70 no México (reserva de Felix junto com o Leão), usava camiseta de mangas curtas. O número 78? Era para indicar o ano em que eu estaria em um clube grande e, quiçá, na seleção brasileira. Jogava sonhando. E sonhava que jogava. Como fazem os meninos pobres. Achava que do Avenida poderia ir para o América do Rio. E dali para o mundo.

        Mas, naquele sábado, véspera do maior de todos os jogos, havia uma magia no ar. Fomos ao cinema. Era uma Faroeste. E fomos dormir cedo. O presidente do clube estabeleceu toque de recolher. E fomos para o hotel do Ernesto. Sim, concentramos, pela primeira vez. Cada um ganhou um abrigo. Cinza. E, nas costas, a inscrição: Atlético Clube Avenida. Ninguém tinha algo assim na redondeza. Adroaldo, nosso lateral – que já na época era uma espécie de ala – não bebeu naquela noite. Inacreditável. Aliás, ninguém pôde beber nada.

        Quase não consegui dormir. Aliás, eu não precisaria concentrar. Morava pertinho do hotel. Apenas duas quadras de distância. Jovem que era, não bebia. De quando em vez, um conhaque Dreher. Aí era fogo mesmo. Lembro de um porre que tomamos depois de um torneio que ganhamos na Várzea do Agudo. Voltamos em um caminhão. Sem cobertura de lona. O cabelo duro de pó. Assim eram as coisas. Ah, os domingos à tarde…! E como éramos felizes. Domingo era o melhor dia. Era dia de futebol. O frio na barriga na hora do jogo. Lembro como se fosse hoje. E sinto um certo embargo na voz.

        Levantamos cedo. Era o dia do grande jogo. O Esporte Clube Cachoeira. Era um time profissional. Disputava o Campeonato Gaúcho.  Pois o Cachoeira vinha com moral. Afinal, havia ganho do Internacional de Porto Alegre. Placar apertado, um a zero, mas ganhou. Comentário geral na cidade. E na região.

        Já cedo, fomos para o Estádio. Lotado. A Rádio São Roque, de Faxinal do Soturno, veio transmitir o jogo.  Entrevistaram todo o time do Cachoeira. Baita máscara. Era o tempo do cabelo black power. E cabelos longos. Havia muitos jogadores do Cachoeira assim. Bem “na moda”. Mas o nosso time também tinha cabelos longos. Mas não chegávamos a usar “rabo de cavalo”. Podia pegar mal na cidade. O repórter veio e me entrevistou. E eu falei nas potentes ondas de um quarto de quilowatt da Rádio São Roque. Depois me falaram: eu  te ouvi na rádio.  O que é que eu queria mais? Podia querer mais do que jogar bola, ser entrevistado pela rádio e depois ir para o América do Rio? Podia querer mais do viver de jogar bola?

     Vestiário. Preleção. Nossas camisas novas. Ninguém na redondeza tinha algo assim. Vermelhas. E o distintivo, redondo, era igual ao do América. Onde eu queria jogar. E entramos em campo. Estádio lotado.  De camiseta preta, saí na frente; depois o zagueiro central, Velho, mais Hilário, Adroaldo, João Carlos, Pastel (centromédio), Lauro (meia armador), Maçarico, ponteiro direito clássico, Aldomiro, centroavante ao estilo Roberto Dinamite, Nequinha e Dieter. Era o onze avenidense. Entramos na frente. Nem vi o Cachoeira entrar. Estava de olho no repórter. Queria falar de novo.

      Começa o embate. Dois minutos de jogo e Maçarico entra rasgando pela direta, dribla o lateral, ganha na corrida do quarto zagueiro e fulmina o goleiro Maninho. Avenida um a zero. Ninguém acreditava. O Cachoeira enlouqueceu. Veio para cima. Alçando bolas. Lembro-me que aproveitei para fazer uma ponte. Desnecessária. Mas bonita. Só eu sabia que era desnecessária. Só os goleiros sabem. Goleiros são como poetas. defesa.jpgFingidores. E pontes são feitas pelos goleiros e ninguém sabe quando são necessárias. Só quando são “de reflexo”. Não era o caso. Mas podia ser. Quem iria saber?

        Falta contra o nosso time. Rasteira. Segurei. E o jogo continuou.   Dez minutos e o Cachoeira encurtando o gramado. Mandando bola para a área. Naquele dia nada passava. Outra ponte. Do lado esquerdo. Quase fora da pequena área. Puro enfeite. Mas não podia desperdiçar o momento. Quem sabe aquele jogo não era a passagem para o América? E caí para o lado esquerdo. Ninguém sabia, mas minhas pontes só eram boas quando caía para a esquerda. Por alguma razão, o meu lado direito era frágil. Mas nunca contei para ninguém. Nem para minha namorada. Afinal, não se mistura futebol e amor.

        Bola lançada na direita do ataque do Avenida. De novo ele, Maçarico. Replay do gol anterior. Dois a zero. Ninguém acreditava. E era o dia dele. Fez mais um gol. Avenida três a zero.  O Cachoeira ainda fez o gol de honra. Era o dia do Avenida. Era o dia do goleador. No mesmo dia, foi contratado pelo Cachoeira. Jogou alguns meses e voltou. Para jogar no Avenida. De novo.

        As coisas eram assim. Emocionantes tardes de domingo…! Nos domingos nem as luzes pálidas dos butecos e dos alpendres do casario da rua principal nos deixavam tristes. Domingo não era o fim. Mas aquele domingo tinha um algo a mais. Jamais o esqueceríamos. Ganhamos do Cachoeira. Que ganhara, tempos antes, do Internacional de Porto Alegre, que ganhara do Penharol, que, por sua vez, já havia sido Campeão do Mundo e era atual Campeão da Copa Tereza Herrera, e que ganhara, tempos antes, do Independiente, Campeão Mundial e tetra-campeão da Libertadores da América. Sim, fazendo os cálculos, nos fomos campeões do mundo. E merecidamente. O placar não deixou dúvidas: 3×1.

        E nunca mais esqueceríamos aquela tarde. Por muito tempo não se falava de outra coisa. Nunca mais faríamos algo tão épico. Era possível ter mais do que aquilo? Era possível ser mais feliz? Poderia sonhar mais alto, além de jogar no América (e na seleção)?  Por muito tempo as pessoas falavam daquela tarde. E éramos felizes. Muito felizes. Éramos felizes e sabíamos disso…! Como diz uma música bem popular, que escutávamos na época, “se eu pudesse eu queria voltar o tempo, prá não ficar sonhando.”